do livro Rapto de Memória
Mas existia ainda um desconforto, talvez maior que as outras dores; inconformada, não sabia que rumo dar à vida.
Dias sem sol, noites sem estrelas: pesadelos.
-Não, nada demais. Tudo bem! Você está ótima.
- Como? Se me parece que vou vomitar a alma!
-Exagero é característica sua. O que você possui em excesso, as pessoas, a maioria delas, têm de menos: imaginação e sensibilidade. Não sou oráculo, não me olhe assim. Você questiona a extinção de sua raça. Todos os seus sintomas são verdadeiros, não são dores inventadas e podem levá-la à morte naturalmente, sem tragédia; apenas não se sente mais a vida. Não faça essa expressão de desentendida. Sabe muito bem do que estou falando. A solução parece simples, mas não é, parece complexa, e não deixa de ser rotineira. O cotidiano é, às vezes, desconexo, sem sentido. As mesmas coisas podem ser feitas com ou sem prazer pela mesma pessoa, é contraditório...
-Eu sei, mas...
O excesso de amor também confunde. O perfeccionismo gera esse desconforto. Imagine, cada pessoa tem seu script, o seu papel existencial que bem ou mal representa. Há que se respeitar o direito que lhe cabe.
A nós coube apenas uma insignificante ponta no espetáculo - a figura secundária que atravessa o palco como meteoro é tão fugaz que , se é percebida, logo cai no esquecimento.
-Talvez seja a hora de valorizar-se a história familiar onde quer que se encontre. As organizações coletivas representarão inúmeros EUS, incontáveis vontades.
- O pano de fundo mítico, a grande reserva ecológica, o buraco de ozônio, o final do milênio, o caos...
Obviamente tudo isso é importante. Pense e visualize o seu canto de guerra, seu grito preso, asfixiado na garganta; antes disso, sinta-o e o administre. Seja prática. O momento presente... Sinta-se dos pés às pontas dos cabelos; do fundo da alma ao mais belo e frívolo vestido; viva suas emoções nas emoções do outros: músicas, danças, pinturas, perfumes, no romance historiado quase crônica, quase vida: histórias... - Pois é, mas...
- Quem sabe se nos livrássemos do peso escuro da história que não a ajudamos a escrever, (não?!) pudéssemos construir outra memória mais leve, limpa, harmoniosa e feliz.
Como eu lhe dizia...
Faça o que lhe ditar seu interior, seus próprios grilhões já lhe tolhem. Fantasmas, fantasminhas; duendes, fadas; bruxas, tudo criação sua. Arrume outro brinquedo. Sim, lúdico. Jogue os dados, lance a sorte. Não é discurso paranóico. Estética da esquizofrenia? Você vê arte em tudo: no sonho e na ciência. E a sua arte de viver? Arte profana...! Sim. Alguns já se libertaram a muito do peso do pecado. Crime é ser infeliz e tornar o outro vítima de sua tristeza, de suas frutrações. Não quer o avesso, a desordem amorosa, a estética dessacralizante... tudo bem! Faça a seu modo sua história, viva! Até mais...
Nunca alguém esteve tão próximo de mim, pensei. Tive que me conter para não colocá-la no colo. Como pode essa frágil mulher viver tanto o amor pela humanidade! Quase louca, quase santa. Incompreendida. Sério, tive vontade de abraçá-la, fazer-lhe um filho. Enterrar-me em suas entranhas e só sair dali com outra face criada pela energia amorosa. E a ética? A consciência me aprisiona.
O psiquiatra neuroticamente se envolvera nas malhas e imagens do discurso amor de sua paciente. Ele não sabia o que fazer com as emoções que ela suscitou.
(...)
Maria Teresinha Martins, do livro: Rapto de Memória (págs. 36-38)
domingo, 19 de junho de 2011
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